<font color=0094E0>Luta de massas, motor da oposição</font>
É impossível falar da campanha para as «eleições» presidenciais de 1958 sem sublinhar o vigoroso movimento de massas que as antecedeu e precedeu, envolvendo a classe operária industrial e rural, os jovens e os estudantes, as mulheres, os intelectuais e sectores e camadas sociais progressistas.
No período que decorre entre a segunda metade dos anos 50 e os primeiros anos da década de 60, os avanços e recuos do fluxo revolucionário, o ascenso da luta popular e dos trabalhadores em grandes e pequenas iniciativas, agudizaram a crise geral da ditadura fascista e moldaram os combates travados, nos quais se contextualizam as campanhas de Arlindo Vicente e Humberto Delgado, e a vitória não reconhecida do General sem Medo nas eleições-burla de 1958.
Para tal, contribuiu decisivamente a concepção fundamental do PCP de que a luta de massas era uma frente determinante e um motor de desenvolvimento do processo que conduziria à revolução antifascista. Para além de denunciar o carácter de classe do poder – ao serviço dos grandes monopólios industriais e agrários nacionais e estrangeiros – impunha-se estimular, promover e organizar a luta do povo em torno de objectivos concretos, linha de orientação que o curso dos acontecimentos veio a confirmar justa e capaz de, partindo de questões específicas, com êxitos retumbantes ou vitórias parciais, fomentar a consciencialização dos trabalhadores e das mais vastas camadas sociais para a necessidade do derrube da ditadura.
O Partido Comunista, experiente no combate às concepções reviralhistas, putchistas e anarquistas que influenciavam o movimento operário e popular nas décadas de 20 e 30; e forjado nas grandes greves operárias de 1942 a 1944, já sob o impulso da reorganização de 1940/41, portanto, mostrou ser a força mais coerente, combativa e apta a influenciar a luta dos trabalhadores e do povo, garantindo a sua continuidade e dinâmica consequente, e fomentando as alianças que estão na base da unidade antifascista.
O povo enfrenta o fascismo
Logo em Dezembro de 1956, milhares de estudantes de Lisboa, Porto e Coimbra entram em luta contra o decreto 40 900. O protesto dobra para o início do ano de 1957, com os universitários a concentrarem-se frente à Assembleia Nacional durante a discussão do diploma, com o qual o regime fascista pretendia liquidar as associações de estudantes e a força crescente do movimento juvenil nos liceus e faculdades.
À luta dos estudantes em Janeiro de 1957, soma-se a dos operários agrícolas do Sul de Portugal que, por altura das colheitas, se mobilizam em greves e concentrações vitoriosas por melhores salários e contra as jornas de miséria, e, em Agosto e Setembro desse mesmo ano, cinco mil pescadores de Matosinhos em defesa do descanso oficial ao domingo.
Dois anos antes, em 1955, já as gentes do mar haviam dado provas da sua têmpera realizando greves e lutas contra a exploração e por melhores condições de vida, as quais envolveram mais de 15 mil pescadores em Setúbal, Matosinhos, Sesimbra, Peniche, Portimão, Afurada, e outras povoações costeiras.
A crescente movimentação da classe operária rural e das cinturas industriais anima os sectores republicanos e democráticos e o 5 de Outubro de 1957 é mais um momento de resistência antifascista em dezenas de localidades do País.
Resistência que se expressa também no Porto, em 1958, a 31 de Janeiro – data que assinala a revolta republicana de 1891 naquela cidade, esmagada com extrema violência pelas tropas fieis à monarquia –, e noutros pontos do País, como Lisboa, Faro, Cascais, Guimarães, Braga ou Barcelos, engrossando as lutas travadas no início do ano em que se realizariam as eleições-burla.
Os corticeiros da Margem Sul, os vidreiros da Marinha Grande e Leiria, os operários industriais, os mineiros e camponeses do Alentejo, ou ainda o povo trabalhador de Tortosendo, que em Fevereiro desfila nas ruas na Marcha da Fome, não desarmam na oposição ao regime fascista.
Os 28 dias de campanha e os meses que lhe sucederam marcados por amplas acções de protesto, às quais a ditadura respondia com a mais feroz repressão e vagas de prisões, confirmaram existir entre as massas populares um irreprimível desejo de liberdade e de democratização da vida nacional.
O fascismo percebeu a dilatação do descontentamento e o fulgor da unidade antifascista, os medos e receios vencidos colectivamente e decidiu não voltar a arriscar nova campanha, por isso passou a «sufragar» o Presidente da República em votação na Assembleia Nacional, provocando desorientação nas ilusões legalistas, as quais, não obstante, se continuariam a manifestar.
Mas nas memoráveis jornadas das «eleições» de 1958 e no repúdio alargado que lhes sucedem, manifestaram-se também forças e reservas inesgotáveis de disposição para a luta, energia que se tornava absolutamente necessário não perder e dirigir com um objectivo: derrubar pela força o que só pela força se mantinha dominante.
Diluem-se as ilusões
Uma petição nacional exigindo a demissão de Salazar abre o ano de 1959 recolhendo milhares de assinaturas. Mal refeitos da repressão, os sectores democráticos e antifascistas são golpeados com a prisão de centenas de activistas entre Fevereiro e Maio, de Norte a Sul do País. Não sem contestação, como é óbvio, do que serve de exemplo a manifestação em Castelo Branco contra a prisão de estudantes pelos esbirros fascistas.
Evidenciam-se, apesar de tudo, focos de tenacidade, abnegação e triunfo a toda a prova. Em Matosinhos, Póvoa de Varzim, Vila do Conde e outros aglomerados piscatórios, milhares de trabalhadores e as respectivas famílias realizam uma greve que ao cabo de 70 dias sai vitoriosa, obrigando mesmo a PIDE a devolver à liberdade os camaradas entretanto presos.
É ainda no decurso de 1959 que as esperanças num golpe putchista competente para derrubar o regime se diluem. Não definitivamente, pois a 1 de Janeiro de 1962 uma outra tentativa insurreccional em Beja sairá igualmente gorada.
Novas vagas de luta
Acertando o rumo táctico – e apesar de golpeado por prisões de importantes quadros partidários, mas também reforçado pelo regresso à liberdade e à luta clandestina de valorosos e experimentados dirigentes do proletariado –, o PCP, recusando o capitulacionismo, relança-se na empolgante tarefa de dar combate ao fascismo privilegiando o desenvolvimento da luta reivindicativa e política, encaminhando-a no sentido revolucionário.
Daqui recobram fôlego os mineiros de Aljustrel que, em Abril de 1960, recusam sair do fundo da mina e declaram-se em greve, uma paralisação acompanhada pela ocupação do sindicato por parte da população. São presos 130 trabalhadores.
Readquirem alento e orientação milhares e milhares de operários dos sectores industriais e agrícolas que, no 1.º de Maio, em Lisboa, no Porto, Tortosendo, Couço ou Guimarães, entre outras, se levantam em greve. Grandes manifestações populares em Lisboa e no Porto no dia da implantação da República são fortemente reprimidas.
Mobilizam-se os jovens que em Lisboa, em Março de 1961, comemoram o Dia do Estudante, efeméride que o fascismo passa a proibir que se assinale, mas que os estudantes, já em 1962, aproveitam para celebrar com luto académico e greve de três semanas nas universidades de Lisboa, Porto e Coimbra.
Ainda em 1961, no mês de Novembro, no Ribatejo e no Alentejo, na Extremadura e nas Beiras Litoral e Interior, o povo contesta a fraude eleitoral remontada pela ditadura.
Na Margem Sul, a população e os trabalhadores combatem a violência policial nas ruas de Almada respondendo na medida do possível, mas evidenciando uma combatividade histórica.
O jovem militante comunista Cândido Martins (Capilé) é morto nesta jornada. O seu funeral transforma-se numa manifestação popular de repúdio do fascismo. Do outro lado do Tejo, na Baixa de Lisboa, milhares manifestam-se contra as «eleições».
Maio maior
O ano de 1962 fica desde logo marcado nos primeiros meses por importantes acções de massas desencadeadas pelo PCP e por lutas reivindicativas em várias empresas.
Em 8 de Março, no Porto, 20 mil pessoas invadem as ruas e até 26 desse mesmo mês nas faculdades enfrenta-se a ditadura.
No 1.º de Maio, o País está em polvorosa. Só em Lisboa mais de 100 mil pessoas, não obstante a carga policial, à qual respondem os manifestantes arremessando pedras da calçada, defendendo-se com postes de sinalização, fugindo das investidas, mas regressando agrupados para nova onda de choque reivindicativa que resultava inevitavelmente numa nova batalha campal.
No Porto, em Almada, no Barreiro, em Alcácer do Sal, no Couço, em Montemor, no Escoural, em Alcáçovas, Pias, Ervidel, Grândola, Alpiaraça, e em dezenas de outras localidades, centenas de milhares de trabalhadores portugueses fazem do seu dia uma inolvidável jornada antifascista.
Oito dias depois, as comemorações da vitória sobre o nazi-fascismo voltariam a reunir muitos milhares, quando nos campos do Sul já os assalariados rurais impõem as oito horas de trabalho.
Impõem porque na maioria dos casos a reivindicação é imediatamente colocada em prática, numa mostra de grande unidade, experiência, perseverança e espírito revolucionário por parte dos trabalhadores agrícolas, constituindo um episódio fundamental na luta do proletariado nacional no caminho da sua libertação, fechando um ciclo de lutas, mas abrindo perspectivas para outras lutas, que foram o motor da oposição ao fascismo e da conquista e consolidação da liberdade e da democracia.
O Partido Comunista, experiente no combate às concepções reviralhistas, putchistas e anarquistas que influenciavam o movimento operário e popular nas décadas de 20 e 30; e forjado nas grandes greves operárias de 1942 a 1944, já sob o impulso da reorganização de 1940/41, portanto, mostrou ser a força mais coerente, combativa e apta a influenciar a luta dos trabalhadores e do povo, garantindo a sua continuidade e dinâmica consequente, e fomentando as alianças que estão na base da unidade antifascista.
O povo enfrenta o fascismo
Logo em Dezembro de 1956, milhares de estudantes de Lisboa, Porto e Coimbra entram em luta contra o decreto 40 900. O protesto dobra para o início do ano de 1957, com os universitários a concentrarem-se frente à Assembleia Nacional durante a discussão do diploma, com o qual o regime fascista pretendia liquidar as associações de estudantes e a força crescente do movimento juvenil nos liceus e faculdades.
À luta dos estudantes em Janeiro de 1957, soma-se a dos operários agrícolas do Sul de Portugal que, por altura das colheitas, se mobilizam em greves e concentrações vitoriosas por melhores salários e contra as jornas de miséria, e, em Agosto e Setembro desse mesmo ano, cinco mil pescadores de Matosinhos em defesa do descanso oficial ao domingo.
Dois anos antes, em 1955, já as gentes do mar haviam dado provas da sua têmpera realizando greves e lutas contra a exploração e por melhores condições de vida, as quais envolveram mais de 15 mil pescadores em Setúbal, Matosinhos, Sesimbra, Peniche, Portimão, Afurada, e outras povoações costeiras.
A crescente movimentação da classe operária rural e das cinturas industriais anima os sectores republicanos e democráticos e o 5 de Outubro de 1957 é mais um momento de resistência antifascista em dezenas de localidades do País.
Resistência que se expressa também no Porto, em 1958, a 31 de Janeiro – data que assinala a revolta republicana de 1891 naquela cidade, esmagada com extrema violência pelas tropas fieis à monarquia –, e noutros pontos do País, como Lisboa, Faro, Cascais, Guimarães, Braga ou Barcelos, engrossando as lutas travadas no início do ano em que se realizariam as eleições-burla.
Os corticeiros da Margem Sul, os vidreiros da Marinha Grande e Leiria, os operários industriais, os mineiros e camponeses do Alentejo, ou ainda o povo trabalhador de Tortosendo, que em Fevereiro desfila nas ruas na Marcha da Fome, não desarmam na oposição ao regime fascista.
Os 28 dias de campanha e os meses que lhe sucederam marcados por amplas acções de protesto, às quais a ditadura respondia com a mais feroz repressão e vagas de prisões, confirmaram existir entre as massas populares um irreprimível desejo de liberdade e de democratização da vida nacional.
O fascismo percebeu a dilatação do descontentamento e o fulgor da unidade antifascista, os medos e receios vencidos colectivamente e decidiu não voltar a arriscar nova campanha, por isso passou a «sufragar» o Presidente da República em votação na Assembleia Nacional, provocando desorientação nas ilusões legalistas, as quais, não obstante, se continuariam a manifestar.
Mas nas memoráveis jornadas das «eleições» de 1958 e no repúdio alargado que lhes sucedem, manifestaram-se também forças e reservas inesgotáveis de disposição para a luta, energia que se tornava absolutamente necessário não perder e dirigir com um objectivo: derrubar pela força o que só pela força se mantinha dominante.
Diluem-se as ilusões
Uma petição nacional exigindo a demissão de Salazar abre o ano de 1959 recolhendo milhares de assinaturas. Mal refeitos da repressão, os sectores democráticos e antifascistas são golpeados com a prisão de centenas de activistas entre Fevereiro e Maio, de Norte a Sul do País. Não sem contestação, como é óbvio, do que serve de exemplo a manifestação em Castelo Branco contra a prisão de estudantes pelos esbirros fascistas.
Evidenciam-se, apesar de tudo, focos de tenacidade, abnegação e triunfo a toda a prova. Em Matosinhos, Póvoa de Varzim, Vila do Conde e outros aglomerados piscatórios, milhares de trabalhadores e as respectivas famílias realizam uma greve que ao cabo de 70 dias sai vitoriosa, obrigando mesmo a PIDE a devolver à liberdade os camaradas entretanto presos.
É ainda no decurso de 1959 que as esperanças num golpe putchista competente para derrubar o regime se diluem. Não definitivamente, pois a 1 de Janeiro de 1962 uma outra tentativa insurreccional em Beja sairá igualmente gorada.
Novas vagas de luta
Acertando o rumo táctico – e apesar de golpeado por prisões de importantes quadros partidários, mas também reforçado pelo regresso à liberdade e à luta clandestina de valorosos e experimentados dirigentes do proletariado –, o PCP, recusando o capitulacionismo, relança-se na empolgante tarefa de dar combate ao fascismo privilegiando o desenvolvimento da luta reivindicativa e política, encaminhando-a no sentido revolucionário.
Daqui recobram fôlego os mineiros de Aljustrel que, em Abril de 1960, recusam sair do fundo da mina e declaram-se em greve, uma paralisação acompanhada pela ocupação do sindicato por parte da população. São presos 130 trabalhadores.
Readquirem alento e orientação milhares e milhares de operários dos sectores industriais e agrícolas que, no 1.º de Maio, em Lisboa, no Porto, Tortosendo, Couço ou Guimarães, entre outras, se levantam em greve. Grandes manifestações populares em Lisboa e no Porto no dia da implantação da República são fortemente reprimidas.
Mobilizam-se os jovens que em Lisboa, em Março de 1961, comemoram o Dia do Estudante, efeméride que o fascismo passa a proibir que se assinale, mas que os estudantes, já em 1962, aproveitam para celebrar com luto académico e greve de três semanas nas universidades de Lisboa, Porto e Coimbra.
Ainda em 1961, no mês de Novembro, no Ribatejo e no Alentejo, na Extremadura e nas Beiras Litoral e Interior, o povo contesta a fraude eleitoral remontada pela ditadura.
Na Margem Sul, a população e os trabalhadores combatem a violência policial nas ruas de Almada respondendo na medida do possível, mas evidenciando uma combatividade histórica.
O jovem militante comunista Cândido Martins (Capilé) é morto nesta jornada. O seu funeral transforma-se numa manifestação popular de repúdio do fascismo. Do outro lado do Tejo, na Baixa de Lisboa, milhares manifestam-se contra as «eleições».
Maio maior
O ano de 1962 fica desde logo marcado nos primeiros meses por importantes acções de massas desencadeadas pelo PCP e por lutas reivindicativas em várias empresas.
Em 8 de Março, no Porto, 20 mil pessoas invadem as ruas e até 26 desse mesmo mês nas faculdades enfrenta-se a ditadura.
No 1.º de Maio, o País está em polvorosa. Só em Lisboa mais de 100 mil pessoas, não obstante a carga policial, à qual respondem os manifestantes arremessando pedras da calçada, defendendo-se com postes de sinalização, fugindo das investidas, mas regressando agrupados para nova onda de choque reivindicativa que resultava inevitavelmente numa nova batalha campal.
No Porto, em Almada, no Barreiro, em Alcácer do Sal, no Couço, em Montemor, no Escoural, em Alcáçovas, Pias, Ervidel, Grândola, Alpiaraça, e em dezenas de outras localidades, centenas de milhares de trabalhadores portugueses fazem do seu dia uma inolvidável jornada antifascista.
Oito dias depois, as comemorações da vitória sobre o nazi-fascismo voltariam a reunir muitos milhares, quando nos campos do Sul já os assalariados rurais impõem as oito horas de trabalho.
Impõem porque na maioria dos casos a reivindicação é imediatamente colocada em prática, numa mostra de grande unidade, experiência, perseverança e espírito revolucionário por parte dos trabalhadores agrícolas, constituindo um episódio fundamental na luta do proletariado nacional no caminho da sua libertação, fechando um ciclo de lutas, mas abrindo perspectivas para outras lutas, que foram o motor da oposição ao fascismo e da conquista e consolidação da liberdade e da democracia.